A história de Stephen King seria muito diferente se não fosse sua esposa, Tabitha.

Por muitos anos, King varou madrugadas escrevendo contos e tentando ser publicado. Trabalhou até de tintureiro para sustentar a si e à família. E chegou a jogar fora o manuscrito de Carrie, a estranha – que viria a ser seu primeiro sucesso.

Carrie, aliás, rendeu um retorno inesperado ao autor. 2500 dólares de adiantamento dos direitos autores e, depois, US$ 200 mil pela brochura.

Seus livros viraram filmes de grande sucesso, como o próprio Carrie a Estranha, ou O Iluminado e Um sonho de liberdade. E, como não lembrar, o recente boom do remake de It, a coisa.

Mas todo este sucesso não é gratuito. Tem um preço.

 

Como Stephen King alcançou o sucesso?

Stephen King nunca para de escrever.

King costuma escrever 10 páginas por dia. Seja nos dias de Natal ou Ano Novo, ele está na labuta. O que explica suas dezenas de romances e centenas de contos. Talvez também explique seus mais de 350 milhões de exemplares vendidos no mundo.

Sua disciplina o leva a aconselhar: “coloque sua mesa em um canto e, todas as vezes em que se sentar para escrever, lembre-se da razão de ela não estar no meio da sala. A vida não é um suporte à arte. É exatamente o contrário”.

Porém muito longe de se considerar alguém virtuoso, Stephen King já passou por poucas e boas. Inclusive foi alcóolatra e viciado em drogas. Chegou a admitir que não tem lembrança alguma da escrita de alguns de seus livros da década de oitenta.

Só houve um momento em que King parou de escrever.

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Sobre a escrita, de Stephen King, e o que fez ele parar de escrever

Stephen King e Tabitha

Aconteceu em 1999, enquanto fazia uma caminhada próxima a sua casa de veraneio, no Maine.

Ele foi atropelado.

Imagine você o estado em que ficou. Teve oito fissuras na coluna e nove na perna. Quatro costelas quebradas e o joelho partido ao meio.

Neste período, King redigia o livro autobiográfico Sobre a escrita (ver na Amazon).

Uma leitura recomendada tanto para quem deseja conhecer mais Stephen King, como para quem quer se aprofundar na escrita.

Em boa parte do livro, o autor se dedica a contar sua história. Revela as dificuldades que passou e como isso levou a construir sua visão de escritor. E temos também, na sequência, seus conselhos sobre a arte da escrita.

Caso deseje adquirir este livro, mais do que recomendamos. E para você já ir tendo um gostinho, separamos as 33 melhores dicas que você encontra em Sobre a escrita, de Stephen King.

 

33 Conselhos sobre escrever de Stephen King

Stephen King, Maine, Agosto de 2013

1) Escreva com a porta fechada, reescreva com a porta aberta. Em outras palavras, você começa escrevendo algo só seu, mas depois o texto precisa ir para a rua. Assim que você descobre qual é a história e consegue contá-la direito – tanto quanto você for capaz -, ela passa a pertencer a quem quiser ler.

2) Não deve haver telefone no seu local de escrita, certamente não deve haver TV ou videogame pra você se distrair. Se tiver uma janela, feche as cortinas.

3) A boa escrita costuma vir ao deixarmos o medo e a afetação de lado. A própria afetação, que começa com a necessidade de definir certos tipos de escrita como “bons” e outros como “ruins”, é um reflexo do medo.

4) De meu ponto de vista, histórias e romances se dividem em três partes: narração, que leva a história do ponto A para o ponto B e, por fim, até o ponto Z; descrição, que cria uma realidade sensorial para o leitor; e diálogo, que dá vida aos personagens através do discurso.

5) O advérbio não é seu amigo. Considere a frase ‘Ele fechou a porta firmemente’. Não é de forma alguma uma frase horrível, me questione a você mesmo se ‘firmemente’ realmente precisa estar lá. E o contexto? E toda a inspiradora (pra não dizer emocionalmente tocante) prosa que veio antes da frase? Não seria isso que deveria nos dizer de que forma ele fechou a porta? E se a prosa precedente realmente diz, não seria ‘firmemente’ uma palavra sobrando? Não seria redundante?”

6) Em prosa expositiva, os parágrafos podem (e devem) ser organizados e utilitários. O parágrafo expositivo ideal contém uma frase síntese seguida por outras frases que explicam ou ampliam a primeira.

7) Para mim, a boa descrição consiste em apenas alguns detalhes bem-escolhidos que vão falar por todo o resto.

8) Geralmente, as situações mais interessantes podem ser expressas como uma pergunta do tipo “e se”.

9) Uma vez que sua história esteja no papel, porém, é preciso pensar no que ela significa e enriquecer as versões posteriores com suas conclusões. Fazer menos que isso é privar seu trabalho (e, por consequência, seus leitores) da visão que faz de cada história que você escreve única.

10) Em uma entrevista eu disse que histórias são como coisas encontradas, como fósseis enterrados no chão, e o entrevistador disse que não acreditava em mim. Eu disse que tudo bem, contanto que ele acreditasse que eu assim acreditava. E acredito. Histórias não são como camisetas ou videogames, são como relíquias, parte de um mundo pré-existente não descoberto. O trabalho do escritor ou da escritora é usar as ferramentas que possuem em sua caixa de ferramentas para retira-las tão intactas quanto possível. Às vezes o fóssil que você encontra é pequeno; uma concha. Às vezes é enorme, um Tiranossauro Rex com suas costelas gigantes e dentes enormes. De qualquer forma, contos ou romances de mil páginas, a técnica de escavação é a mesma.

11) Sempre que penso em ritmo, eu volto a Elmore Leonard, que explicou isso perfeitamente, dizendo que ele simplesmente deixava de fora as partes chatas. Isso sugere cortar para dar velocidade ao ritmo, e é o que a maioria acaba fazendo.

Uma família quase toda de escritores: Joe Hill, Tabitha King, Kelly Braffet, Owen King, Stephen King, Naomi King e o cachorro de Joe, McMurtry.

12) E, se você fizer seu trabalho, seus personagens vão ganhar vida e começar a agir por conta própria. Sei que isso soa um pouco assustador se você nunca tiver vivenciado algo parecido, mas é incrivelmente divertido quando acontece. E vai resolver vários de seus problemas, pode acreditar.

13) Escritores tímidos gostam da voz passiva pelo mesmo motivo que amantes tímidos gostam de parceiros passivos. A voz passiva é segura. O tímido escreve ‘a reunião acontecerá às sete horas’, porque isso de alguma forma isso lhe diz, ‘Coloque dessa forma e as pessoas acreditarão que você realmente sabe’. Coloque os ombros pra trás, levante o queixo, e faça essa reunião acontecer! Escreva ‘a reunião é às sete’. Pronto! Não se sente melhor?

14) A linguagem não precisa sempre usar gravata e sapatos amarrados. O objeto da ficção não é a correção gramatical, mas sim fazer o leitor se sentir bem vindo e contar uma história. Fazer ele ou ela esquecer, sempre que possível, que ele ou ela estão lendo uma história.

15) Quando você escreve uma história, você está contando essa história pra você. Quando você a reescreve, sua principal tarefa é jogar fora tudo que não for a história.

16) O pano de fundo é tudo o que aconteceu antes de sua história começar, mas tem algum impacto no enredo principal. Ele ajuda a definir os personagens e a estabelecer suas motivações. Acho que é importante inserir o pano de fundo o mais rápido possível, mas também é importante fazer isso com graça.

17) Você precisa ler amplamente, refinando e redefinindo constantemente seu próprio trabalho enquanto o faz. Se você não tem tempo para ler, você não tem tempo (ou as ferramentas) para escrever.

18) Ler durante refeições é considerado grosseria em sociedades educadas, mas se você pretende ser bem sucedido como escritor, grosseria deve ser sua penúltima preocupação. A última deve ser uma sociedade educada e o que ela espera. Se você pretende escrever tão verdadeiramente quanto pode, seu dias como membro de uma sociedade estão contados, de todo jeito.

19) (…) eliminar pronomes ambíguos (eu odeio pronomes, não confio neles; são todos escorregadios como um advogado de porta de cadeia), incluir frases esclarecedoras onde forem necessárias e, é claro, eliminar todos os advérbios que eu puder (nunca consigo eliminar todos; nunca é o suficiente).

20) O ritmo é a velocidade com que a narrativa se desenrola. Existe, nos círculos editoriais, uma crença tácita (logo, não defendida e não confirmada) de que as histórias mais bem-sucedidas comercialmente têm ritmo vertiginoso.

21) A descrição é o que transforma o leitor em um participante sensorial da história.

22) Precisamos conversar um pouco sobre pesquisa, que é um tipo de pano de fundo especializado. E se você precisa fazer pesquisa, porque algumas partes de sua história tratam de coisas sobre as quais você sabe muito pouco ou nada, lembre-se sempre de que é o pano de fundo dos acontecimentos. É lá que a pesquisa deve ficar: tão no fundo quanto possível, misturada ao máximo no contexto.

23) A situação vem primeiro. Os personagens — sempre rasos e sem características, no início — vêm depois.

24) “Não está ruim, mas está INCHADO. Reveja o tamanho. Fórmula: 2ª versão = 1ª versão – 10%. Boa sorte”. […] O que a Fórmula me ensinou é que todas as histórias e todos os romances são, até certo ponto, reduzíveis.

25) Um apresentador uma vez me perguntou como eu escrevo. Minha resposta – ‘uma palavra de cada vez’ – o deixou sem resposta. Acho que ele não soube dizer se era ou não uma piada. Não era. No fim, é simples assim. Seja uma página simples ou uma trilogia época como ‘O Senhor dos Anéis’, o trabalho é sempre realizado uma palavra de cada vez.

26) Ninguém pode imitar a maneira peculiar de um autor de se aproximar de determinado gênero, ainda que possa parecer a coisa mais simples. Pessoas que decidem fazer fortuna escrevendo como outro autor não produzem nada além de imitações pálidas, em sua maioria, porque vocabulário não é a mesma coisa que o sentimento e a verdade compreendida pelo coração e pela mente.

27) O parágrafo de uma única frase lembra mais a fala que a escrita, e isso é bom. Escrever é seduzir.

28) Estou convencido de que o medo é a raiz da maior parte das escritas ruins. Dumbo conseguiu voar com a ajuda de uma pena mágica; você pode sentir o desejo de usar um verbo passivo ou um desses péssimos advérbios pelo mesmo motivo. Antes de faze-lo apenas se lembre que o Dumbo não precisava da pena; a mágica estava nele.

29) (…) uma das principais regras da boa ficção é nunca dizer algo que você pode, em vez disso, nos mostrar.

30) A primeira versão de um livro – mesmo um livro longo – não deve demorar mais de três meses para ser escrita, que é a duração de uma estação do ano.

31) A segunda versão serve, por exemplo, para trabalhar o simbolismo e o tema.

32) Se você nunca fez isso antes, ler seu próprio livro depois de seis semanas de descanso será uma experiência estranha. É seu, você vai reconhecer como sendo seu, até se lembrará qual a música que estava tocando quando escreveu certo trecho, e ainda assim será como ler o trabalho de outra pessoa, um irmão de alma, talvez. É assim que deve ser, a razão pela qual você deu um tempo. É sempre mais fácil frustrar os desejos de outra pessoa do que os seus próprios.

33) Quero encerrar este pequeno sermão com um aviso: começar com as questões e as preocupações temáticas é receita certa para má ficção. A boa ficção sempre começa com a história e progride até chegar ao tema, ela quase nunca começa com o tema e progride até chegar à história.

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Se quiser ler mais dicas, aproveite para adquirir o livro Sobre a escrita, de Stephen King (ver na Amazon), e assinar nossa newsletter para não perder nenhum artigo.

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Vilto Reis

VILTO REIS é autor de Um gato chamado Borges, livro finalista do Prêmio SESC 2015, e da monografia As teorias narrativas de Hitchcock aplicadas à Psicose. Tem contos publicados nas revistas Pulp Fiction, Flaubert, Raimundo, Pluriversos e no portal hispânico CuentoColectivo. Faz leituras críticas de originais e atua como coaching literário. Também é idealizador do site Homo Literatus, além de apresentador do podcast 30:MIN e de inúmeras séries de vídeos no Youtube.