Você finalmente acabou de escrever seu livro. Porém sempre que volta a ele, encontra uma coisa para mudar. E fica aquela dúvida: você sabe realmente como revisar um livro?

Quem sabe você acha que isso é besteira.

Mas e se eu te disser que a revisão pode fazer com que seu livro seja publicado ou não?

Na hora de avaliar um original, 50% dos editores nem chega ao fim do primeiro parágrafo se notar um erro na primeira frase. Se ver que falta concisão ao texto, nem chegará ao fim da primeira página. E se achar o primeiro capitulo frouxo demais, sem apresentar algo essencial para a trama, nem chegará ao fim dele.

Continue lendo este artigo se você deseja aprender como revisar um livro. E, quem sabe assim, aumentar suas chances de ser publicado.

 

O que é a primeira versão do livro?

Digamos que você tenha tido uma ideia. Depois colocou esta ideia na estrutura para ser mais fácil seu desenvolvimento. Passou meses convivendo com aqueles personagens. Escreveu e escreveu.

Até que chegou ao fim da história. Mas na verdade você não chegou ao fim do livro.

O que você fez até agora foi concluir a primeira versão.

Repare, não estou dizendo que isso seja pouco. Para ser sincero, este é o momento de comemorar. Saia para beber, ou para comer. Você concluiu uma etapa muito importante. E isso é fundamental para o escritor – concluir etapas.

No entanto, você está bem longe de concluir o livro. Agora começam as revisões.

 

Como revisar um livro e por que fazer isso

Permita-me citar aqui uma sábia observação de Ernest Hemingway, escritor premiado com o Nobel de Literatura:

“A primeira versão de qualquer coisa é uma merda.”

Outro escritor importante que falou sobre o assunto foi Philip Roth. Aliás, em suas oficinas literárias, costuma dizer aos alunos que suas primeiras versões não são melhores do que as de qualquer um ali.

Primeiras versões de originais são tortas. Cheias de frases a mais que não revelam nada sobre os personagens, nem fazem a história avançar.

Você deve comemorar quando chega ao final da primeira versão de um livro, mas precisa saber que está longe de finalizar.

Muita gente sabe disso. Já ouviu falar do assunto. Porém não sabe o que fazer, nem como revisar um livro. Por esta razão, tomei emprestado do livro Oficina de escritores, de Stephen Kock, uma lista de revisões que o escritor deve fazer.

São 7 revisões:

  • Estrutura
  • Desenvolvimento
  • Enredo
  • Clareza
  • Solução dos dez por cento
  • Revisar um livro em voz alta
  • Reescrita de memória

Veja como funciona cada uma delas a seguir.

 

7 Revisões essenciais após a primeira versão do seu original

Estrutura – a montagem da história

Está na hora de conferir se você alcançou o que queria.

Confira a sequência de cenas, de parágrafos ou de blocos de informação. Muitas das vezes, algumas informações estão repetidas. Ou até mesmo há um desencontro de informações. Esta é a hora de corrigir e conseguir coerência.

Verifique também se o ritmo e o encadeamento de acontecimentos estão corretos. É normal acontecer algumas confusões quando você está na primeira versão. Afinal de contas, você está conhecendo sua própria história.

Desenvolvimento – sempre dá para melhorar

Muitas das vezes, no ímpeto de resolver a história, de acabá-la, você passa voando por algumas cenas. Esquece de descrever o espaço, ou de dar algum detalhe importante.

Esta é a hora de desenvolver melhor tudo que você produziu na primeira versão. Encha muitas páginas com as novas ideias que podem ser desenvolvidas.

Enredo – como tornar a história ainda mais interessante?

O que você poderia mudar na ordem dos acontecimentos para a história ganhar em interesse?

Faça este exercício. Organize em frases curtas novamente a sequência dos acontecimentos, de forma a ver se as reviravoltas estão ou não nos lugares certos etc.

Tudo de acordo com a estrutura já citada no artigo (se você quiser baixar um esquema, clique aqui).

Clareza – alcance a transparência no seu texto

Parece simples ou desnecessário dizer isso, mas tente sempre deixar seus propósitos no texto acessíveis ao leitor. Procure deixar sua obra o mais clara possível, nenhuma obra literária jamais ficou melhor só por ser ilegível ou obscura.

Solução dos dez por cento

É uma ideia citada por Stephen King para refinar o texto.

King ainda era um jovem escritor, tentando ser publicado quando recebeu este conselho de um editor que rejeitou um de seus textos.

“Nada mau, mas inchado. Revisar para diminuir o tamanho. Fórmula: 2ª versão = 1ª versão – 10 por cento”.

Desde então, o escritor passou a sempre cortar dez por cento de tudo que escrevia. Faça o teste e aplique esta revisão na hora de revisar um livro. O resultado é muito mais surpreendente do que você espera.

Revisar em voz alta

Uma das revisões mais importantes é a de ouvido.

O ouvido é um excelente editor. E pode ser seu primeiro editor. Então procure sempre ler em voz alta seus textos quando estiver revisando.

Mamie, a filha do escritor Charles Dickens, relatou que quando pequena esteve doente e passou vários dias no escritório do pai.

Então fez a seguinte observação. Quanto mais Dickens mergulhava em seu trabalho, mais passava a falar em voz baixa e muito ligeiro. De repente, ele se levantava, ia ao espelho, murmurava fazendo caretas, depois voltava e escrevia.

Ele ouvia a voz dos personagens por meio de sua própria voz. E escrevia.

Reescrita de memória

Quando estiver atolado num texto original, reescreva-o de memória.

Essa ideia vem dos cadernos de anotação de Fitzgerald. A reescrita de memória permite que você conduza a escrita com precisão para o que realmente é a história e não para os labirintos da linguagem.

***

Talvez você não precise fazer cada uma dessas revisões separadas. Mas certamente ao seguir algumas dessas ideias, seu original ficará muito melhor.

E lembre-se, alguém já disse que nunca acabamos de escrever um livro. Chega um momento que a gente desiste e publica.

Seja obsessivo com suas revisões, porém não deixe de tentar ser publicado. Seja por editorar, concursos ou autopublicação.



Vilto Reis

VILTO REIS é autor de Um gato chamado Borges, livro finalista do Prêmio SESC 2015, e da monografia As teorias narrativas de Hitchcock aplicadas à Psicose. Tem contos publicados nas revistas Pulp Fiction, Flaubert, Raimundo, Pluriversos e no portal hispânico CuentoColectivo. Faz leituras críticas de originais e atua como coaching literário. Também é idealizador do site Homo Literatus, além de apresentador do podcast 30:MIN e de inúmeras séries de vídeos no Youtube.