9 Dicas de Português para Escritores Iniciantes escreverem muito melhor e serem publicados

Publicado por José Figueiredo em

Imagine a situação. Você é um editor e recebe um original. Uma história maravilhosa, personagens bem construídos, enredo empolgante e, de repente, salta aos teus olhos esta frase: “A anos não nos víamos.” Você se pergunta: será que esse autor não pensou em buscar Dicas de Português para Escritores no Google?

Leonard Woolf, editor e marido da escritora Virgínia Woolf, tolerava muitas coisas em um original, menos erros básicos de grafia e gramática nas três primeiras páginas (fato tão famoso que Michael Cunningham pôs em seu romance As horas).

Já imaginou perder todo o trabalho de horas pensando nos personagens, no enredo e tudo mais por deixar passar algo do tipo?

A sua história pode se perder no mundo por causa de algo bem fácil de evitar.

Neste instante você está pensando: “Mas eu não lembro todas as regras.” Ou “acho gramática difícil”.

Para isso criamos essas Dicas de Português para Escritores.

Continue lendo para todas as suas dúvidas respondidas nos assuntos abaixo:

  • A ambiguidade pode enganar você. Imagine o seu leitor
  • Pleonasmo vicioso – Pare de escrevê-los!
  • Os clichês não são seus amigos
  • Queísmo – Que isso?
  • Repetição é chatice ao quadrado
  • Mecanismos de coesão – Melhore sua lógica!
  • Articuladores textuais – suas frases não serão mais as mesmas
  • Eco e cacofonia podem te fazer passar vergonha
  • Revisão – A prova de que você é um escritor

 

A ambiguidade pode enganar você. Imagine o seu leitor

Muitas vezes, quando se escreve, ambiguidade pode ser algo positivo. Deixar um final aberto, uma cena dúbia, entre outros.

No entanto, há momentos e momentos. Construir frases ambíguas pode tornar seu texto difícil de ser compreendido. Em outras palavras, ambiguidade não intencional vai fazer com que o leitor desista de ler o que você leu.

Isso acontece devido ao mal uso de palavras, em especial pronomes, e pontuação.

Por exemplo:

A mãe pediu a filha para arrumar o seu quarto?

O quarto de quem? Da filha? O seu próprio?

Vi João andando com o seu carro.

O carro é do João ou da pessoa que recebe a mensagem. Mas como saber?

Então, como resolver esses problemas?

No caso da primeira frase, temos a seguinte opção:

A mãe pediu a filha para o quarto dela.

A filha vai arrumar o próprio quarto. Mais claro, não?

Já na outra frase, podemos fazer o seguinte:

Vi João andando no carro dele.

Vi João andando no teu carro.

No primeiro caso, o carro é do João; no segundo, o carro pertence a quem recebe a mensagem.

Outro exemplo ainda:

A escritora falou com o garoto que amava livros grandes.

Quem ama livros grandes: a escritora ou o garoto?

Sempre seja direto e evite construções longas demais. Lembre, quanto maior for o período, maior é a chance de ambiguidade. Frases com pontos finais a cada duas linhas ajuda a evitar ambiguidade.

Além disso, tome cuidado com pronomes possessivos e com o queísmo (para saber o que é isso, continue lendo).

Outra forma de evitar ambiguidade é seguir sempre a forma mais simples de se dizer o que se deve ser dito. Isso não significa simplificar, antes usar a forma padrão do português (sujeito, verbo e objeto), evitando muitas voltas e adjetivações.

É o grande conselho que serve tanto para criar sua história quanto para produzir boas frases: se você não tem certeza de como isto funciona, não use.

 

Pleonasmo vicioso – Pare de escrevê-los!

Não há nada mais chato em um texto literário que um pleonasmo, ainda mais vicioso.

Você pode até não saber o nome técnico disto, porém, acredite, quando encontra um deles, pode identificá-lo imediatamente.

Pleonasmo é a superabundância de palavras usadas para apresentar uma ideia. Veja abaixo alguns exemplos clássicos.

  • Sair para fora.
  • Entrar para dentro.
  • Voltar para trás.
  • Subir para cima.
  • Descer para baixo.

O pleonasmo vicioso, que é uma versão turbinada e repetitiva disto, só se justifica quando dá maior vigor à frase ou ao texto. Caso contrário, torna a leitura desgastante, deixando seu texto cansativo.

Então evite algumas ideias como as abaixo bem como as da lista logo acima:

  • Viver a vida
  • Encarar de frente
  • Elo de ligação
  • Estrelas do céu
  • Viúva do falecido
  • Há anos atrás
  • Detalhes minuciosos
  • Plano planejado
  • Si próprio
  • Repetir de novo/outra vez
  • Surpresa inesperada
  • Seguir em frente
  • Voltar atrás (este merece aparecer duas vezes)

 

Os clichês não são seus amigos

Evite lugares comuns, pois o clichê é basicamente isto.

Não diga que “ele sofreu uma dor profunda”. Ou “ela está sofrendo de amor”. Maria não precisa “ter o coração partido”. João nem sempre entra em uma grande jornada que mudará a sua vida.

O problema do clichê não é o seu uso, mas a falta de criatividade dele. Ao menos você o use ao seu favor, para subverter ou simplesmente debochar dele, evite-o.

No entanto, não evite a emoção que deseja transmitir ao leitor. O clichê pode e deve ser retrabalhado. Histórias, afinal, falam sobre seres humanos, e nós temos uma gama limitada de emoções por maior que seja quantidade.

Quem sabe você não acaba criando um novo clichê?

 

Queísmo – Que isso?

O uso exagerado de “QUE” no texto pode deixá-lo parecendo uma máquina com problema que bate e faz sempre o mesmo som. Muitas vezes não percebemos o que deixa o texto chato, mesmo o tema ou a história sendo interessante. Na maior parte do tempo, o queísmo é o grande culpado.

Então não devo usar “QUE” nunca ao escrever?

Claro que não. No entanto, há outras formas para dar fluência ao texto que você pode conhecer seguindo na leitura.

Você pode cortá-lo se desnecessário na frase.

A população de Brasília, (que é) a capital do Brasil, muda diminui durante os finais de semana.

Troque frases inteiras por adjetivos.

Políticos que não são honestos
Políticos desonestos

Crianças que não tem educação
Crianças mal-educadas

Pessoas que trabalham muito
Pessoas trabalhadoras

A lista é infindável, mas a ideia está clara, não?

Também reduza as frases. Seja mais conciso.

Assim que terminou a aula, João foi para casa.
Terminada a aula, João foi para casa.

Depois que tiver terminado de escrever o capítulo, vou descansar.
Escrito o capítulo, vou descansar.

 

Repetição é chatice ao quadrado

Este é fácil de evitar, uma vez que você apenas precisa estar atento ao texto na hora de revisá-lo.

Ao escrever, não nos damos conta de que repetimos a frase. O que não é um problema. No entanto, deixar a mesma palavra repetir 5 vezes num parágrafo de dez linhas pode ser frustrante para o leitor.

Há algumas técnicas simples para evitá-los que você pode conhecer na sequência do texto.

Usar sinônimos sempre ajuda. Ao invés de dizer “casa”, você pode dizer “lar”, “moradia”, “residência”, “morada”. Para não falar novamente “falar”, você pode usar “dizer”, “expor”, “afirmar”, “atentar”, “explicar”.

O site sinônimos.com.br está aí para nos ajudar, não acham?

Outra forma pode ser simplesmente cortar a palavra se não for fazer falta ao texto.

Caso esteja falando sobre um acontecimento, não precisa relembrá-lo sempre. Ele já está subentendido como tema da cena. Logo, apenas use a elipse do tema a seu favor.

Quando falar sobre pessoas, evite repetir nomes ao usar pronomes. Não há necessidade de lembrar que João falou e Maria respondeu se existe só ambos numa cena. Ele falou e ela respondeu dão conta do recado.

Caso nada funcione, tente reescrever a frase de forma a transmitir a mesma ideia usando outras palavras.

No entanto, lembre que há palavras que precisamos repetir. Os verbos ser e estar, os pronomes pessoais, uma palavra ou outra em que um adjetivo nem sempre fecha com o contexto.

 

Mecanismos de coesão – Melhore sua lógica!

Coesão é a forma pela qual o texto constrói sua lógica. Saber lidar com os mecanismos de coesão é nada mais que entender como você pode melhorar a lógica da sua história e conduzi-la ao teu objetivo.

Vamos ver alguns deles logo abaixo.

A primeira e mais elegante é a elipse de palavra. Isso nada mais é do que a omissão um ou mais palavras sem que se comprometa a clareza do texto.

João fez o almoço e então pôs a mesa.

Viu como não precisa repetir João toda vez que ele age?

O uso de conjunções também é muito importante para dar coesão e fluência ao texto. Uma vez que liga as frases, a conjunção evita frases truncadas e sem conexão uma com a outra.

  • Como chegou tarde, comeu apenas a sobremesa.
  • Meu irmão não pagou a conta de luz, portanto cortaram a luz.

Já a coesão lexical significa usar sinônimos, pronomes, hipônimos ou heterônimos para referir à outra palavra.

Difícil? Continua lendo que vai ficar mais fácil com o exemplo.

Machado de Assis foi um grande escritor. Nascido e criado no Rio Janeiro, ele escreveu peças de teatro, poemas, contos e romances. O grande escritor, ao contrário do que se imagina, não viveu da renda de livros, e sim como funcionário público.

Viu como retomamos Machado de Assis com o pronome “ele” e heterônimo “o grande escritor”?

 

Articuladores textuais – suas frases não serão mais as mesmas

São as palavras que ligam as frases e ajudam a desenvolver e ordenar o sentido que se quer dar para o texto.

Sem eles, as frases não se conectam e o texto fica parecendo obra do Tarzan.

Veja os exemplos.

Maria chegou em casa atrasada. Teve pouco tempo para fazer o jantar. João não se importou.

Maria chegou em casa atrasada. Então, teve pouco tempo para fazer o jantar, porém João não se importou.

Notou como “então” e “porém” dão mais fluência ao texto?

Como são muitos e a lista seria infindável, você pode clicar aqui e conferir todos os articuladores possíveis.

 

Eco e cacofonia podem te fazer passar vergonha

Leia a frase abaixo e depois vamos às explicações:

A promoção de divulgação do mercado do João não causou comoção na população.

O eco ocorre quando há palavras na frase com a mesma terminação ou semelhantes, gerando um efeito ruim ao se ler. No caso acima, o som ão é o que provoca o eco.

Agora outros exemplos:

  • Vi ela na esquina.
  • Uma mão lava a outra.
  • Dei um beijo na boca dela.

Acontece quando a junção de sons de duas palavras diferentes cria um som desagradável. Ela pode inclusive gerar a ideia de outra palavra devido a essa junção.

Na primeira frase, “vi ela” pode levar a “viela”; na segunda, “uma mão” pode levar a “um mamão” e “boca dela” pode ser entendido como “cadela”.

 

Revisão – A prova de que você é um escritor

Há algumas coisas importantes na hora de se escrever e que demandam muito sacrifício. Assim, ao terminar o texto o trabalho termina, certo?

Errado.

Deixar a história descansar é ótimo, porém revisá-la é melhor ainda. Este trabalha tem tanta importância quanto criar. Os erros são corrigidos, as arestas são trabalhadas e assim por diante.

Faça uma leitura apenas para revisar o texto na parte gramatical. Vírgulas, pontuação, erros de digitação e coisas do tipo. Pode não parecer, mas ajuda e muito a melhorar a fluência da história ao focar nestes aspectos.

Leia em voz alta para ver se o fluxo do texto está bom. Se as frases parecem truncadas em voz alta, a leitura delas em silêncio não será muito diferente. Faça isso depois da revisão gramatical, pois, se não problemas gramaticais, as frases estão a precisar de uma melhoria.

Aproveite e revise apenas os lugares comuns, os clichês etc. Pense que na hora do fluxo, quando digitamos ou escrevemos algo, uma ideia parece sensacional. No entanto, depois de dois dias, lendo-a junto do resto, a ideia maravilhosa soa cafona e fora de lugar.

Se serve de consolo, Hemingway escrevia à lápis para ter a possibilidade de revisar três vezes no mínimo (quando lê o que escreveu, ao datilografar e na revisão).

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Esperamos que você tenha gostado dessas dicas de português para escritores. 

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Dicas de Português Para Escritores


José Figueiredo

Coeditor do HL, participante do 30:MIN, idealizador e editor da Pulp Fiction. Um completo desastre na vida. Também autor do livro Há Um Tubarão Na Piscina (Nocaute, 2017).